Um retrato das gerações ávidas por mudanças na estrutura sócio-cultural do país em que vivem, mas que, ao se tornarem adultos e perceberem a grande oportunidade de ascensão gerada pela milionária indústria cultural, desviam suas trajetórias em busca do luxo e da exposição de uma vida com poucos valores. Essa é a imagem decadente apresentada por Ugo Giorgetti em “O Príncipe”, que tem como protagonista o ator Eduardo Tornaghi representando Gustavo, um brasileiro que viveu 20 anos afastado de sua pátria e de seu grupo de amigos aos poucos subvertido.
Ao voltar para o Brasil, Gustavo percebe que todos os que lutavam com ele passaram a promover o capitalismo da cultura, sendo inclusive sugerido por um de seus ex-colegas que ele desse aulas sobre o livro “O Príncipe”, de Maquiavel, para empresários empenhados em administrar seus negócios com pulso mais firme. Inclusive, uma antiga amada de Gustavo, também pertencente ao grupo de amigos, acaba indo parar até na capa do caderno de cultura de um famoso jornal devido à sua atuação como responsável por projetos culturais em uma grande empresa nomeada MW. A pura exposição social de um alguém que não é nem artista.
O mais engraçado é perceber que, entre todos os que restaram da antiga vida do protagonista, o único que se mantém são no que diz respeito aos seus ideais é justamente o intitulado de louco. O primo de Gustavo, um professor de história de um colégio particular paulistano, começa a querer mudar a história do Brasil através de ensinamentos inventados passados para os jovens alunos. Ele quer que o Brasil tenha uma história que nunca teve: uma história honrada e admirável. Apesar de agir pelos meios errados, o primo é o único ainda não subvertido, e é isso que Gustavo tanto gosta nele.
“O príncipe” não possui flashbacks do passado do protagonista, e nem mostra como realmente é a vida dele na França depois de 20 anos afastado: tudo fica a encargo do espectador. E é garantia que quem assiste percebe uma decadência sem fim da geração de 1970.